SOBRE CORPOS, PERFORMANCES E APROPRIAÇÕES DO ESPAÇO URBANO DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19
INTRODUÇÃO
O presente trabalho é fruto do projeto “Mostra Fotográfica e Corpos Generificados”, iniciativa que parte de diálogos entre diferentes grupos de estudo e pesquisa brasileiros e portugueses sobre as temáticas do ócio, lazer, gênero, performance e espaço urbano (GECE e NECO/CLLC UA-Portugal e Geplec/UFPR-Brasil).
Realizado entre 2019 e junho de 2021, esse projeto (ou texto) tem por objetivo apresentar representações sobre corpos e suas performances no espaço urbano antes e durante a pandemia de Covid-19, à luz de registros fotográficos realizados pelos grupos mencionados.
Nesse sentido, foi realizada uma recolha de registros fotográficos num período compreendido entre os anos 2019 e 2021, contemplando assim perspectivas sobre um antes e um durante a pandemia de Covid, no que se refere aos diferentes âmbitos de estudo.
Sabendo isso, dividimos esse texto em cinco partes, em que tratamos de: apreensões sobre o que é e como se produz um corpo; disposições dos corpos durante o isolamento social decorrente da pandemia, assim como violências sofridas e suas práticas de resistências; intervenções em muros antes e durante a Covid; o cessar dos confinamentos; e o que se pode esperar em relação a um período posterior à pandemia.
PARTE I – O QUE PODE UM CORPO OU DAS DISPOSIÇÕES DOS CORPOS ANTES E DURANTE A PANDEMIA
O corpo é um veículo pelo qual os dispositivos expõem relações de poder, dimensões de conhecimento e modos de produção de subjetividades. Trata-se de uma rede composta por multiplicidade de afetações e desejos.
E “o que define um corpo é esta relação entre forças dominantes e forças dominadas. Toda relação de forças constitui um corpo: químico, biológico, social, político” (Deleuze, 1976, p. 28).
Como pode então o corpo reverter as relações de dominantes que o atravessam? Perante esta questão, Deleuze, no seu último texto publicado, “A Imanência: Uma Vida” (2002), assume uma perspectiva de vida em estado constante de pura potência, que confirma a sua plenitude na própria impotência. Abre-se, então, a possibilidade dos corpos se poderem reterritorializar como corpos ativos, capazes de atos criativos. E para que tal seja possível é necessário recuperar o corpo, libertá-lo do poder que o bloqueia e recuperar os seus impulsos, a sua espontaneidade, a sua diferença e os seus desejos.
Quando isso ocorre, quando o corpo é despojado da rede que o aprisiona, exalta a sua capacidade de agir, precisamente a partir da extração dos poderes que se abateram sobre ele e o bloquearam. É então possível a metamorfose de “corpos disciplinados” em “corpos de possibilidades”.
Também é importante ressaltar que o corpo não pré-existe. Os seus gestos, atos, comportamentos, linguagens e discursos são desenhados, moldados, transformados pelas forças com que se vai deparando e pelos desejos que vai contraindo.
“As entidades corporalizadas também não existem anteriormente às convenções culturais que essencialmente atribuem significado aos corpos. Dentro dos termos da performance, os atores já estão sempre em palco” (Butler, 2011, p. 80).
E esse corpo, enquanto promotor de atos performativos, possibilita uma visibilidade das convenções culturais representadas e internalizadas. Através das mesmas é possível perceber as relações de poder estabelecidas no corpo, que o induzem “a tornar-se um signo cultural” (Butler, 2011, p. 73). Nem os bloqueios nem as possibilidades são exteriores ao corpo, tampouco lhes são naturais. Só quando experimentadas repetidamente são corporalizadas e se tornam integrantes das subjetividades.
A partir da perspectiva enunciada pretende-se equacionar uma deslocação de um corpo, no qual atuam os dispositivos de poder, para um corpo que contrai e expande disposições de resistência.
PARTE II – DA COVID E DAS DISPOSIÇÕES DOS CORPOS: VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS DURANTE OS CONFINAMENTOS
E como o corpo e seus atos performativos se fazem nas repetições cotidianos entre tempos e espaços, os corpos antes e durante a pandemia de Covid-19 já não são os mesmos. Afinal, a pandemia deslocou profundamente as práticas de trabalho e as práticas sociais das pessoas a nível global, convocando novas possibilidades, também propagadas pelos diversos canais da mídia: distanciamento social, máscaras, desinfetantes (uso constante de álcool em gel, de água e sabão), diretrizes de segurança, confinamento compulsório. E muitos governos ao redor do globo optaram por impor o isolamento social como a principal medida para combater a propagação do vírus, desencadeando mudanças dramáticas na dinâmica da vida social (Lins, Costa, Moraes, Barbosa Junior & Martins, 2020; Martins, 2021).
Além disso, a iminência da crise de saúde pública e a ameaça de colapso econômico têm feito com que questões relacionadas à vivência, qualidade de vida e lazer sejam ignoradas ou classificadas como “não essenciais”. De repente, o espaço público foi evacuado pela presença humana, como se mais fosse um cenário distópico (Grigoriadou, 2020), em que se predominam ruas vazias, lojas, restaurantes, parques, o que também gerou fortes impactos no turismo, este que se tornou um segmento em crise.
E nesses corpos, nesses presentes, um símbolo se destaca: a máscara hospitalar cirúrgica, para cobrir narizes e bocas daqueles que, por alguma razão, saem de suas casas para ir à rua, cujos únicos estabelecimentos abertos consistiam em supermercados e farmácias, onde se percebia, entre paredes e portas, orientações de cuidado contra o contágio pelo vírus. Onde se frisava o uso da máscara sobre o rosto e o álcool em gel sobre as mãos (este disposto à entrada) como medidas necessárias para entrar no estabelecimento. Medidas que se convertiam em crivos que delimitam a passagem entre o dentro e o fora.
E nesses períodos de isolamento um segmento de gênero foi bastante afetado: as mulheres. Se comparado ao ano 2020, as que foram despedidas de seus trabalhos quadruplicaram (Caetano, 2021). Não por acaso, em 8 de março de 2021, António Guterres, na qualidade de Secretário-Geral das Nações Unidas, apontou que a crise da Covid-19 tinha rosto de mulher. Afinal, a pandemia tinha exacerbado as profundas desigualdades já sentidas por mulheres e meninas, eliminando anos de progresso em direção à igualdade de género.
Não o bastante, também aumentou a violência contra as mulheres. Da violência doméstica ao risco acrescido de contágio das profissionais que trabalham em hospitais, centros de saúde ou como trabalhadoras domésticas, as mulheres têm experimentado os efeitos da pandemia sob um aumento da pressão sobre os seus corpos, quadro que mais se agrava quando considerados os fatores interseccionais, como classe e raça, situação de guerra, precariedade dos direitos das mulheres nos contextos socioculturais em que vivem. (Latif & Baptista, 2020, p.9).
E ainda nesses períodos cabe destacar práticas em que estes e outros corpos resistem. Corpos que questionam lógicas neoliberais e machistas, que se estendem da economia às questões de raça e gênero; não separadas, mas juntas. Corpos que, já questionando regras, foram às ruas e, de diversas formas, se manifestaram contra estas e outras violências, entre as quais podemos citar suas restrições aos lazeres no espaço público, delimitadas pelo Estado. Alguns corpos, por exemplo, como manifesto, jogaram ao chão faixas que simbolizavam a proibição do acesso aos parques e a outros espaços de lazer.
PARTE III – QUANDO VIDAS, QUANDO MUROS
E assim como esses cotidianos se reconfiguram, se reconfiguram intervenções em muros, arquiteturas pela cidade. Muros já gritos dos silêncios daqueles que calam. Muros-sangues, muros-gritos, que antes da pandemia afirmavam do fascismo e das opressões em instituições. Grito pintado com tinta-sangue neste e noutros muros, retratando dos violentos silêncios, retratando da mudez de quantos no dia a dia. Um campo de guerra expresso em paredes, em muros distribuídos pelo corpo-cidade, pulsando e sangrando. Uns gritam. Outros choram. Homens. Mulheres. Crianças. Expressam de seus lugares, suas histórias e violências.
Mas quando da pandemia, quando em 2020, os muros agora também remetem ao vírus, afirmando, por exemplo, que “o vírus é o capitalismo”, num período em que as vulnerabilidades mais se evidenciam, assim como o aumento daqueles que lucram com tantas e quantas explorações.
Os muros, portanto, têm pulmões. Respiram. Os muros são corpos. Têm peito. Sangue. Artérias. Calos. Chão. Muros choram. Têm fome.
IV – QUANDO CESSAM OS CONFINAMENTOS
Cessam os confinamentos. Cessares temporários. Agora muitos já transitam e desfrutam dos espaços públicos, sozinhos, acompanhados, em pé, sentados. Ainda sob a necessidade de máscaras cirúrgicas, que marcam estas vidas, estas vias, estas visagens, reconfigurando, mas não impedindo, contatos, rotinas, cotidianos. E entre máscaras, seguem quantos homens, mulheres, idosos, idosas dispostos sobre seus bancos, com grupos de amigos ou familiares, vivendo, quem sabe, possíveis ócios ou mesmo lazeres.
Enquanto isso servidores do governo, guardas, estes olhos do Estado, seguem em vigília, em busca da presença de comportamentos ou quaisquer medidas desviantes frente à nova ordem, desvios cujas punições se configuram a partir de avisos e multas. São os olhos do Estado, reafirmando as normas nesses cotidianos.
Assim foi um período de 2020 (não tão diferente de nosso 2021), nestas ruas outrora vazias, agora cheias de gente, com seus estabelecimentos também cheios de gente, visitando mercados, participando de atividades culturais, ou mesmo ao redor de mesas, conversando, como o caso de idosos em seus lazeres. Idosos que se encontram para interagir com amigos ou colegas, com suas máscaras ao queixo e cartas à mão, num ambiente que, sob estereótipos, remete aos papeis culturais e sociais masculinos, expressos entre cervejas e cartas sobre a mesa; e nas quatro paredes quadros, bandeiras e outras alusões ao clube de futebol da cidade.
V – SOBRE OUTROS PRESENTES E SEUS PORVIRES
Sobre o que se nos espera ou que esperamos de nós, não sabemos ao certo. Há quem afirme que os corpos já não serão os mesmos, que o “novo normal” nunca será “normal”. Algumas medidas possivelmente seguirão, permanecerão, e nós permaneceremos vigiados por dentros e foras, dos comportamentos às células, das cidades ao mais privado das casas. Afinal, uma breve irrupção, seja de um vírus tornar-se-á um possível perigo. No entanto, sabe-se, em verdade, que tal vigilância se detém é sobre a microfísica em que se produz e consiste cada corpo em suas relações. De outro modo: talvez sejamos mais vigiados e circundados pela cobra-capital, liquida, que pelas frestas penetra e tudo margeia.
De momento, a única certeza, é que o presente desafia. E cabe a nós a união de forças não contra a Covid, apenas. Esse talvez seja o menor de nossos desafios. Mas contra qualquer barreira que nos sufoca aquilo que nos grita voz e a vida. Cabe a nós a busca por quebras, por linhas de fuga, desterritorializações, para que nosso corpo não nos seja uma gaiola entre carnes e ossos. Cabe a nós liberarmos o pássaro da gaiola (Deleuze & Guattari, 2012).
Sigamos, sabendo que o vírus-capital já ali estava, já em nós estava, antes de quaisquer Sars-CoV’s.
Referências
Butler, J. ([2004] 2011). Actos performativos e constituição de género – Um ensaio sobre fenomenologia e teoria feminista. Género, Cultura e Performance. Antologia Crítica. Organização: Ana Gabriela Macedo e Francesca Rayner. V. N. Famalicão: Humus.
Caetano, M (2021). Mulheres em casa quadruplicaram no fecho escolar. In Jornal de Notícias https://www.jn.pt/economia/mulheres-em-casa-quadruplicaram-no-fecho-escolar-13269239.html
Deleuze, G. ([1962] 1976). Nietzsche e a Filosofia. Tradução de Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio.
Deleuze, G. (2002). A Imanência: Uma Vida. Educação e Realidade, 10-18.
Deleuze, G., & Guattari, F. ([1980] 2012). Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 03. São Paulo: Editora 34.
Grigoriadou, E. T., (2020). The urban balcony as the new public space for well-being in times of social distancing, Cities & Health, DOI: 10.1080/23748834.2020.1795405
Guterres, António (2021). Uma Crise com rosto de mulher. In Público https://www.publico.pt/2021/03/08/opiniao/noticia/crise-rosto-mulher-1952868
Latif, L & Baptista, M. M. (2020). Estamos todos juntos nisto? — A peste ou contributos para um mundo pós-pandémico. In Baptista, M. M. & Castro, F (Org.). Género e Performance Textos Essenciais 3, pp. 7-28.
Lins, C. de F. M., Costa, I. M., Moraes, L. D. de., Barbosa Junior, F. W. de S., & Martins, J. C. de O. (2020). Ócio, lazer e tempo livre das velhices em quarentena: Perspectivas psicossociais de um estudo brasileiro. LICERE – Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, 23(3), 341-368. https://doi.org/10.35699/2447-6218.2020.25446
Martins, J. C. O. (2021). Ócio: Reflexões a partir do isolamento social. In: J. C. O. Martins, C. F. Melo & F. W. S. Barbosa Junior (Orgs.). Ensaios da pandemia: O isolamento social entre caos e recriação da vida (pp. 215-232). Curitiba: Appris.
Equipa
Idealização e Planeamento
CLLC – Centro de Línguas, Literaturas e Culturas, do Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro
GECE – Grupo Género e Performance / CLLC
NECO – Núcleo de Estudos sobre Cultura e Ócio / CLLC
GEPLEC – Grupo de Estudos e Pesquisa em Lazer, Espaço e Cidade / UFPR
Guião
Catarina Alves
Francisco Welligton Barbosa Jr
Gabriela Nicolau
Helena Ferreira
Maria Joana Alves Pereira
Mariana Couto
Marta Leitão
Miguel Babo
Telma Brito
Revisão Textual
Catarina Alves
Helena Ferreira
Desenvolvimento do Site
Rodolfo Pereira
Produção
Alexandre Almeida
Francisco Welligton Barbosa Jr.
Produção Executiva
Maria Manuel Baptista
Miguel Babo
Produção de Imagens
Alcina Fernandes
Alexandre Almeida
António Pernas
Catarina Alves
Cleiton Martins Duarte da Silva
Fernanda de Castro
Francisco Welligton Barbosa Jr
Gabriela Nicolau
Helena Ferreira
Jacinta Bola
Lanfeng Zhou
Larissa Latif
Maria De Maria Quialheiro
Maria Joana Alves Pereira
Maria Manuel Baptista
Mariana Couto
Marie Tavares
Marta Leitão
Miguel Babo
Renata Castelo Branco Araújo
Rita Rhimmel
Simone Rechia
Telma Brito
Thaís Azevedo
Vera Solange de Sousa
Zhi Beizhen
Zulmira Cândida
Este projeto foi financiado por fundos nacionais, através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto UIDB/04188/2020.